O método de transcrição utilizado é uma variação do proposto por Bartók (1924) para grafia de melodias folclóricas. A função principal deste método é clarificar a estrutura melódica de cada peça, o que abre a possibilidade de comparar e agrupar distintas melodias.
O trabalho aqui realizado não pretende ser um estudo etnomusicológico no sentido mais amplo, tarefa que exigiria a utilização de métodos etnográficos muito mais abrangentes que a notação dos sons, além de demandar um desenvolvimento e uma discussão crítica demasiado grandes para seu propósito. Antes, o objetivo é o de realizar a revisão, padronização e análise de melodias já anotadas por Carlini (1993), primordialmente para meu uso pessoal como compositor. Tal uso buscado implica certa parcialidade e viés nos resultados, especialmente com relação ao uso de notação ocidental e temperamento 12edo. Aos interessados na crítica destas possíveis "distorções" c.f. Ciantar, 1996; Nettl, 1983; etc.. Futuramente podem ser agregadas melodias de outras fontes anotadas, ou transcritas diretamente de fontes sonoras.
A notação musical utilizada se resume a alturas e ritmos. A notação é relativa, as alturas estão todas transpostas a uma nota finalis comum, sol, estando a finalis original indicada no princípio da partitura. A finalis neste contexto significa a última nota literal da melodia, e não a fundamental de uma tonalidade inferida da melodia.
Não é utilizada armadura de clave, todos os acidentes são indicados (salvo repetição no mesmo compasso). Além disso, a transcrição não considera mudanças de registro, pois visa representar o contorno melódico em abstrato. Tais mudanças de registro são comuns por exemplo em toadas de catimbó, em que é frequente que uma melodia cantada por um mestre (voz masculina) seja respondida por um coro em que se destacam vozes femininas.
Em geral optou-se por não anotar fórmula de compasso. Esta só é utilizada se a rítmica da melodia o exige (por exemplo, se um compasso binário aparece inserido no meio de uma melodia de rítmica ternária). Assim, uma melodia (neste caso, CM2) que transcrita literalmente se anota:
Em transcrição relativa se anota:
Sobre a partitura são indicados o registro (limite superior e limite inferior) e as cesuras (separações entre seções da letra, marcadas com o grau em que cadenciam). Seria redundante marcar a última cadência, visto que esta sempre será no primeiro grau.
No caso desta última partitura, o registro se anota IV-4 e a forma cadencial como [1 [1] ♭3] (primeira cesura no primeiro grau, cesura central no primeiro grau, última cesura no terceiro grau rebaixado).
Os graus são nomeados da seguinte maneira:
Por fim, uma sequência de números separados por vírgula indica a forma estrófica da melodia. 8, 8, 11, 11, por exemplo, indica uma forma de 4 seções, com duas seções de oito sílabas e duas seções de 11 sílabas. Um único número, 12, indica 4 seções isométricas, com 12 sílabas cada.
Quando a melodia se repete com outra letra, novos versos são separados por uma indicação em números romanos. Traços (- - - -) indicam repetição de um ou mais versos anteriores. Por exemplo (CM2):
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I.
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As três informações juntas, forma estrófica, forma cadencial e registro, funcionam como um perfil geral da melodia. A melodia CM1, por exemplo, pode ser representada como:
| Forma estrófica | Cesuras | Registro melódico |
|---|---|---|
| 8, 8, 11, 11 | [1 [1] 1] | VI-4 |
A partir deste perfil é possível comparar várias melodias distintas e agrupá-las, buscando características em comum.
Referências
- Bartók, Béla (1924) A Magyar Népdal
- Carlini, Álvaro (1993) Cachimbo e Maracá: o Catimbó da Missão
- Ciantar, Philip (1996) Styles of Transcription in Ethnomusicology, Durham theses, Durham University. Available at Durham E-Theses Online: http://etheses.dur.ac.uk/2024/
- Nettl, Bruno (1983) The Study of Ethnomusicology